Introdução no fim do ano: o acarajé
Bem, a única coisa que faz com que as pessoas cheguem a esse blog é, sem dúvida, os meus reviews de acarajé. Tudo bem que eu não me esforço nem um pouco para que meu blog seja conhecido e tals, mas acho importante recompensar as pessoas que terminam caindo nesse cantinho da internet que é o Retirante.
Esse texto abaixo escrevi para estreia do Explosão de Sabores, uma lenda urbana que até hj não saiu do papel.

Acarajé de Cira, de Itapoã, comprado no Rio Vermelho. O melhor acarajé no melhor lugar para comê-lo
O acarajé é a comida mais gostosa do mundo. Sem dúvida. Além de ser um legítimo representante da Explosão de Sabores, tem seu papel socio-econômico-gastronômico-cultural como poucas iguarias possuem. Abaixo, coloco uma pequena introdução ao verdadeiro acarajé. Aproveitem nham-nham!
Feijão fradinho + cebola + sal + azeite-de-dendê = acarajé? Não!
A verdadeira experiência do acarajé deve reunir outros fatores, além desses, que combinados, dão a Explosão de Sabores esperada.
Nos meus posts de degustação de acarajé pelo Brasil, vocês podem identificar todos esses fatores singulares e quase imperceptíveis para seres normais, mas que nós, baianos, vemos de longe.
Senta que lá vem história:
O bolinho de feijão mais famoso do universo é de origem africana e tem uma ligação intima com o candomblé. Acarajé siginifica “bola de fogo que se come”, do Iorubá, e, até onde eu saiba, é oferecido a Xangô, Iansã e Oxum. O primeiro acarajé fritado deve ser oferecido a Exu, e somente depois os outros podem ser servidos aos povos de bom gosto e boa vontade.
Baiana. Fonte: O Rio antigo do fotógrafo MarcFerrez 3ª edição, 1989 Editora Ex Libris Ltda -> daqui, ó
Na Bahia, o acarajé é feito e servido por uma “baiana”, devidamente paramentada com roupa de santo. A profissão de baiana de acarajé é regulamentada e o bolinho é tombado como patrimônio cultural. No tabuleiro, o acarajé pode ser servido com vatapá, caruru, salada e pimenta.
O fenômeno do acarajé é antropologicamente curioso. O acarajé da Bahia está envolto a rituais, não apenas o religioso, mas sobretudo rituais sociais. Sair para comer acarajé não é coisa de turista, muito pelo contrário. A tradição e o costume de se comer um acarajé no fim-de-tarde, saindo do trabalho, da praia, ou no intervalo da faculdade são extremamaente difundidos.
Essa tradição popularizou algumas baianas, transformando seus tabuleiros em points pops. Cira, Dinha e Regina são as três mais famosas e dividem espaço no Rio Vermelho, o bairro boêmio e alternativo de Salvador. Escolher uma delas é como escolher time de futebol… e, mesmo sem ter torcida organizada, a fidelidade é semelhante, com direito a discussões acalouradas entre os adeptos de uma ou de outra.
A venda do acarajé garante o sustento de famílias de 20 a 30 pessoas e também do funcionamento de Terreiros. Uma profissão tipicamente feminina.
As baianas sofrem, cada vez mais, com a concorrência da venda do acarajé em bares, supermercados e restaurantes, que divulgam o bolinho como fast-food. Essa apropriação do acarajé contraria o seu universo cultural original e a sua venda como “bolinho de Jesus” pelos adeptos de religiões evangélicas – que postam Bíblias em seus tabuleiros – têm causado polêmica. -> daqui, ó
São mais de 5 mil mulheres trabalhando como baianas de acarajé em Salvador. E todas elas moram no meu coração!





















